Os Códigos da Opus Dei

Caros Amigos  (agosto 2006)

Marina Amaral

Reportagem da revista Caros Amigos (agosto 2006)

O sucesso comercial de O Código da Vinci atingiu a mais discreta das instituições da Igreja Católica, a Opus Dei. Relegada ao papel de vilã na trama de Dan Brown, a “Obra” – como é chamada a organização por seus componentes – veio a público para rebater a fama de “sociedade secreta”, justificar práticas constrangedoras de seus membros como a autoflagelação, e responder a acusações de uso de coação e lavagem cerebral no recrutamento da “tropa”. A preocupação agora é afastar a aura de riqueza e poder que a envolve e negar a influência política que exerce dentro e fora da Igreja.

Um monge é encarregado de assassinar os membros de uma antiga irmandade para preservar um segredo capaz de revolucionar o cristianismo e abalar o Vaticano. “A dor é boa, monsieur”, comenta Silas ao observar a agonia de uma de suas vítimas. De volta ao convento, comunica o sucesso da missão ao “Mestre” e cumpre um estranho ritual: tira o hábito religioso deixando à mostra o cílicio (uma cinta de couro com pontas de ferro voltadas para dentro) que lhe fere a coxa e chicoteia impiedosamente o próprio corpo nu.

Além de ser um fanático contemporâneo, ele faz parte, na ficção, de uma instituição real que não pode ser considerada uma seita obscura, já que integra formalmente a Igreja Católica como “prelazia pessoal” do Papa. A maioria certamente jamais tinha ouvido falar da Opus Dei antes do sucesso estrondoso do livro O Código da Vinci, que vendeu no mundo 50 milhões de exemplares e o filme rendeu quase 1 bilhão de dólares. Poucos associaram a Opus Dei a um grande evento católico ocorrido em outubro de 2002, seis meses antes do lançamento do livro, quando 350.000 membros e simpatizantes dela tomaram a praça São Pedro, no Vaticano, para comemorar a canonização de seu fundador, o padre espanhol Josémaría Escrivá. Um santo contemporâneo: foi em 6 de outubro de 1928, durante um retiro em Madri, que Escrivá teve a inspiração divina de criar a Opus Dei, embora ela só tenha criado raízes na sociedade espanhola durante a década de 40. Em 1970 Escrivá viajou para o México dando início às “viagens de catequese” pelas Américas que duraram até as vésperas de sua morte, em Roma em 1975.

O desconhecimento da grande maioria dos católicos sobre a Opus Dei pode ser atribuído à competência da organização em transitar com desenvoltura na elite sem atrair a atenção da maioria da sociedade, pelo menos até o advento do sucesso do romance. Entre os que participam dos círculos mais íntimos da Igreja, sua história polêmica é bastante conhecida desde que floresceu na Espanha após a derrota dos republicanos para os fascistas. Foi durante o governo Franco que a Opus Dei cresceu, principalmente na Espanha – país que até hoje concentra 40 por cento dos 85 mil membros –, e Escrivá contava com a simpatia pessoal do ditador. Ao mudar para Roma a fim de se dedicar à obtenção de um status jurídico para a Opus Dei, Escrivá estimulou ainda mais as acusações à organização de ser simpática aos regimes autoritários de direita, já que suas primeiras vitórias no sentido de estabelecer a Opus Dei como uma estrutura eclesiástica capaz de abrigar leigos e ordenar sacerdotes se deram durante o Pontificado do Papa Pio XII, responsável por um controverso acordo da Igreja com Hitler.

Em 1974, Escrivá viajou para a América do Sul, então dominada por ditaduras militares. O clero progressista tentava utilizar-se do peso da Igreja para denunciar torturas e assassinatos e lutar pelo restabelecimento da democracia. Em suas palestras, além de apregoar a “neutralidade política da Igreja”, Escrivá respondeu certa vez a um militar que perguntava como seguir o caminho da “santificação espiritual” da Opus Dei: “Os militares já têm metade do caminho espiritual feito”.

O próprio processo de beatificação que se iniciou a partir da morte de Escrivá e foi concluído em 1992, seguido da canonização em 2002, foi alvo de grande oposição na Igreja, pela velocidade com que ocorreu. Processos desse tipo costumam demorar décadas, às vezes séculos, e a rapidez com que o fundador da Opus Dei se tornou São Josemaría despertou críticas para além da ala progressista da Igreja. O que já havia ocorrido em 1982, quando até o colégio dos cardeais se opôs à autorização concedida por João Paulo II para que a Opus Dei se tornasse a primeira – e até agora única – prelazia (diocese em formação) “pessoal” do Papa, estrutura até então inexistente no Código de Direito Canônico. Na prática, isso significa a concessão de um poder muito especial ao bispo que comanda a prelazia, o prelado que exerce autoridade sobre os membros da Opus Dei no mundo todo, enquanto os demais bispos têm sua autoridade restrita a um território determinado (a diocese ou arquidiocese). Os padres e os bispos da Opus Dei se reportam diretamente ao prelado, hoje o bispo Javier Echevarría, que os representa na Sagrada Congregação dos Bispos, daí o temor de algumas autoridades do Vaticano que a Opus Dei se tornasse “uma igreja dentro da Igreja”.

A turbulenta história passou ao largo da grande massa de católicos e a instituição manteve seu perfil discreto até o recente romance de Dan Brown, embora a curiosidade entre os que conheciam dentro da Igreja tenha inspirado muitos artigos e uma considerável bibliografia, principalmente no período em que se discutia a controvertida beatificação de Escrivá. Um bom exemplo é Tras el Umbral, una Vida en el Opus Dei, livro da venezuelana, Maria del Carmen Tapia, que viveu na Obra entre 1948 e 1966 e conviveu diariamente com Escrivá durante cinco anos e foi uma das primeiras a quebrar o silêncio sobre sua experiência. Ao decidir deixar a instituição, foi confrontada por um Escrivá enfurecido, que a acusou de estar possuída por um mau espírito, ameaçando desacreditá-la se falasse sobre sua convivência com ele. Durante o processo de beatificação de Escrivá, María Carmen ofereceu-se como testemunha, mas foi difamada pelas autoridades da Opus Dei – entre elas o atual prelado Echevarría – perante o tribunal eclesiástico, que decidiu não permitir seu depoimento.

A experiência de María Carmen revelaria por que muitos têm medo de deixar a Opus Dei e, quando deixam preferem calar. A destruição da reputação dos que a criticam é a forma mais comum de retaliação. Esse foi o principal motivo que levou ex-membros a formar associações que encorajem outros a deixar a Obra. Com a Internet, as denúncias multiplicaram-se nos sites dessas associações – Opus Dei Awareness Network (EUA), Opus Libros (Espanha) e Opus Livre (Brasil), atingindo seriamente a reputação da Obra.
A Igreja manteve um surpreendente silêncio diante disso. Somente dois anos depois da publicação do livro de Dan Brown, o arcebispo de Gênova, cardeal Tarciso Bertone, um salesiano conservador, fez um pronunciamento recomendando aos católicos que não lessem o “Código da Vinci” por ser uma obra que deforma a teologia e a história cristã e difama “instituições da Igreja”.

A caracterização do “monge Silas”- que na ficção pratica seus crimes por ordem do “diretor-geral da Opus Dei” – foi ridicularizada. A começar do fato de a Opus Dei não ter monges nem morarem em conventos – a maioria trabalha em universidades, bancos, hospitais, empresas e órgãos públicos sem nenhuma distinção visível. Quanto à autoflagelação ao cilício a que se submete “uma pequena parcela dos membros da Opus Dei”, seria uma prática espiritual consagrada pela tradição católica como forma de purificação, “pela aproximação com a dor de Cristo.”

Diante de tantas incorreções cometidas pelo escritor, foi fácil para a Opus Dei usar o argumento preferido contra os que a criticam e que, como Brown, a qualificam de obscura, endinheirada e “profundamente conservadora”: o escritor não pode julgar o que não conhece. Ou, nas mesmas palavras que eu tantas vezes ouviria durante os meses que me dediquei a essa reportagem: “Ele não entende a Obra”.

COMO ENTENDER?

Para os que vêem “de fora”, como os jornalistas, “entender a Obra”, ainda que apenas formalmente, é uma tarefa e tanto.

Primeiro por sua condição sui generis – a Opus Dei não é uma ordem religiosa – como franciscanos, capuchinhos, dominicanos – nem um movimento leigo como a Renovação Carismática ou a Comunhão e Libertação e sim uma estrutura eclesiática que admite leigos e padres. A autoridade máxima é o prelado, Echevarría, secundado pelo vigário-geral (monsenhor Fernando Ocáriz) e pelo vigário-secretário (padre Manuel Dacal). Também são chamados de vigários os representantes regionais do prelado – no Brasil, o padre Vicente Ancona Lopez. Os leigos participam dos conselhos consultivos que “auxiliam” o prelado na tomada de decisões. São dois os conselhos centrais, ambos com sede em Roma – o Conselho Geral, que é o principal órgão da seção masculina, e o Conselho Consultor Central, que administra a seção feminina. A mesma estrutura se repete em nível regional – o vigário representa o prelado como instância deliberativa e consulta dois conselhos, masculino e feminino. Tudo, absolutamente tudo na Opus Dei é rigidamente separado por sexos e a primazia masculina é evidente em toda e qualquer instância, justificada por seus representantes como “proteção” às diferenças “naturais”, especialmente “às características femininas”.

A segunda dificuldade de “entender a Obra” está no fato de o discurso quase sempre parecer diferente daquilo que se vê. Exemplos: a Opus Dei define-se como uma organização ancorada nos leigos assim “como os primeiros cristãos”, mas é governada com mão de ferro pelo prelado em Roma cuja autoridade é representada com fidelidade canina pelos vigários regionais. Os diretores nacionais também são padres -, o brasileiro é o padre Fábio Carvalheiro, a quem se subordinam as delegações regionais e os diretores dos centros, onde se desenvolvem as atividades essenciais da Obra – recrutamento e formação doutrinal de seus membros – e onde moram os “numerários” – padres ou leigos que formam a elite da instituição, rigidamente dividida em categorias.
E aí chegamos à segunda contradição entre o que a Opus Dei diz ser e o que se observa de fato.
Ao definir como principal meta “a santificação do mundo secular” através da “santificação do trabalho” comum realizado com “espírito cristão”, a organização apregoa ser uma “sociedade de iguais” em que todos percorrem o mesmo “caminho espiritual” em busca do mesmo objetivo de santificação. O que se verifica, no entanto, é que a “vocação” (o chamado de Deus) para “apitar”(ingressar na Obra) resulta em situações de vida e perspectivas de futuro muito diferentes, de acordo com a categoria em que os leigos são “chamados” a se encaixar e que nela permanecerão enquanto estiverem na instituição.

Os “numerários” compõem aquela “pequena parcela” (entre 20 e 30 por cento do total de membros) que faz voto de celibato, dedica-se integralmente à Obra, segue uma rígida rotina de orações e sacrifícios, entre eles a polêmica mortificação corporal, e vive nos centros da Obra. São o coração da máquina: os únicos que podem ascender na hierarquia “leiga” e ocupar os cargos exclusivos do clero, já que neste grupo são selecionados os que depois se ordenarão padres da Opus Dei – atualmente 1.850 sacerdotes, pouco mais de 40 no Brasil – e que manterão sua condição primordial de numerários. Por exemplo: os dois bispos da Opus Dei no Brasil – dom Rafael Cifuentes, bispo de Nova Friburgo (RJ) e dom Antonio Augusto Dias Duarte, bispo-auxiliar do Rio de Janeiro, são ambos numerários e por isso se subordinam diretamente tanto à autoridade do prelado como à Sagrada Congregação dos Bispos.

O recrutamento dos numerários é feito entre os bons alunos das melhores universidades, de preferência abonados e de famílias “estáveis” (sem divórcios ou “desvios morais”). Cada vez que um numerário atrai um “amigo” para “conhecer a Obra”, tem de obter informações completas sobre ele, de problemas na família à sua vida amorosa (inclusive a pregressa), classe social, características pessoais etc. Só os fisicamente perfeitos são admitidos – os portadores de deficiência não “agüentariam” a dura rotina da Obra, justificam – e há pouquíssimos negros (entre os 280 numerários de São Paulo, há apenas dois). Não podem ir ao cinema nem a espetáculos públicos, têm suas leituras de livros e jornais censuradas – “orientadas”, no jargão da Obra – e, quando trabalham fora entregam seus rendimentos integrais à instituição, assim como a parte juridicamente disponível de suas heranças.

As mulheres numerárias não têm nenhum contato com os homens leigos da instituição e são divididas em duas “castas”: a das numerárias propriamente ditas que, como eles, têm formação universitária e podem exercer atividades profissionais fora da Obra; e a das numerárias-auxiliares, que muitas vezes não são brancas, quase nunca têm formação universitária e provêm na maioria de famílias humildes e são destinadas a dedicar toda a sua vida útil aos serviços domésticos nos centros da Obra. Por fim, há também os adscritos – homens e mulheres –, um pequeno grupo que vive fora dos centros embora tenha as mesmas obrigações e restrições dos numerários, inclusive o voto de celibato. Não se sabe exatamente o porquê dessa distinção. Oficialmente o que se diz é que têm tanta “vocação” para entrega total quanto os numerários e só não moram na Obra por limitações práticas, como a necessidade de cuidar dos pais ou irmãos ou exercer atividades profissionais em regiões onde não há centros da Opus Dei. Ex-membros da Obra, no entanto, afirmam que na maioria das vezes, pelo menos aqui no Brasil, os adscritos não são convidados a morar nos centros por serem considerados “menos dotados”, aos olhos dos dirigentes da Opus Dei.

Por fim, a esmagadora maioria dos membros – mais de 70%, de acordo com a instituição – faz parte da categoria dos “supernumerários”. Quase todos são casados e moram em suas próprias casas, mas participam de retiros periódicos e reuniões semanais, além de receber orientação espiritual de um numerário – quase sempre diretor de um dos centros da Opus Dei – e de confessar sempre com padres da Obra e não os de suas dioceses e paróquias.
São eles que projetam a imagem que a Opus Dei quer que prevaleça na opinião pública: pessoas “normais”, bem-sucedidas na carreira e na vida pessoal, família estável e numerosa e círculo social amplo e influente. Contribuem financeiramente “conforme suas possibilidades”, e atraem a simpatia de seus pares – executivos de corporações, profissionais liberais, empresários, políticos. Entre os nomes mais conhecidos estão Ruth Kelly, ministra da Educação da Inglaterra; Federico Trillio, ex-ministro da defesa espanhol e o ex-procurador geral Jesus Cardenal, ambos do governo Aznar; Robert Hanssen, espião da CIA preso como traidor em 2001, e o banqueiro italiano Gianmario Roveraro – envolvido com a quebra da Parmalat – assassinado em julho deste ano. Outro nome bem conhecido é o do político ultraconservador italiano Alberto Micheline, do mesmo partido de Sílvio Berlusconi. No Brasil, o tributarista Ives Gandra Martins e sua mulher Ruth Vidal Martins são os mais conhecidos fora do círculo da Opus Dei.

As relações sociais e pessoais dos supernumerários são uma mina para a Opus Dei, não apenas em novas “vocações” mas também pela facilidade que têm em atrair “cooperadores” – pessoas que contribuem financeiramente com a instituição ou conseguem doações de grandes empresas para alavancar as iniciativas da Obra.

O segredo mantido por membros e cooperadores da Opus Dei impede que se tenha uma visão clara de sua rede de influência, mas há indícios de que tal rede seja muito maior do que se poderia suspeitar frente à escassez de nomes conhecidos. Um relatório confidencial entregue ao Vaticano em 1979 pelo sucessor de Escrivá, Álvaro del Portillo, provocou comoção quando vazou para o jornal El País. De acordo com as informações passadas pela Opus Dei, sua esfera de influência no mundo secular estendia-se por 479 universidades e escolas secundárias, 604 revistas ou jornais, 52 estações de rádio ou televisão, 38 agências de imprensa e publicidade e 12 produtoras e distribuidoras de filmes.

Conhecendo a amplitude dessa rede é espantoso que a Opus Dei sempre tenha conseguido passar oculta diante da multidão. Foi esse o “pecado” que Dan Brown cometeu ao jogar os holofotes sobre a organização. A publicidade nunca fez parte dos planos dela – nem de seus ilustres membros – por ser desnecessária à captação, prejudicial aos negócios, e comprometedora para os “amigos”, incluindo os do Vaticano. Embora tenha sido obrigada a uma maior exposição na mídia, manteve a estratégia de atuar nos bastidores para resolver o problema de forma mais eficiente. Em vez de processar seus “difamadores” – o conglomerado editorial Ramdom House-Bertelsmann e a distribuidora Sony-Columbia, que lançou O Código da Vinci –, preferiu “dialogar” com os editores do livro, o que “desembocou em uma forma de cooperação” entre ela e a editora Doubleday – de acordo com o jornal El País. O resultado é um livro de 400 páginas escrito pelo correspondente da CNN no Vaticano, John Allen Jr, e lançado o ano passado com o título Opus Dei, os Mitos e a Realidade. Como cortesia adicional, a Doubleday lançou uma edição especial do Caminho, a obra fundamental de Escrivá.

Deu certo. Publicações do mundo todo – inclusive as brasileiras – passaram a ter o livro de Allen como principal referência “objetiva” sobre a Opus Dei. Embora Allen afirme que o livro não deve ser considerado um “estudo autorizado” ele fornece informações globais sobre a Opus Dei que não podem ser encontradas em nenhum outro lugar – os dados objetivos, especialmente números e nomes também foram usados nesta reportagem, tratados como informação oficial da instituição.

A SUCURSAL BRASILEIRA

O Brasil é um dos 65 países em que a Opus Dei está presente – o primeiro centro foi aberto em 1957, no interior do Estado de São Paulo, em Marília, por espanhóis enviados ao Brasil por Escrivá. Fundaram dois centros – um masculino e outro feminino – e pediram reforço: em 1961, para implantar definitivamente a Opus Dei no Brasil, veio de Portugal o espanhol Xavier Ayala, numerário de primeira hora e considerado um dos mais importantes da instituição em nível mundial. “Era o vice-rei disciplinando a colônia”, brinca o ex-numerário, Jean Lauand, que conviveu muito com Ayala.

O doutor Xavier – como gostava de ser chamado embora fosse padre – pisou em solo brasileiro com a missão de fortalecer a ala conservador da Igreja. Às vésperas do Concílio Vaticano II, o clero progressista da América Latina clamava pelo retorno da Igreja às origens revolucionárias do cristianismo e à “opção pelos pobres”, fundamentos da Teologia da Libertação, admirada pelo Papa João XXIII. Como aquele padre de batina negra iria disputar os corações e mentes dos jovens católicos brasileiros na plenitude do entusiasmo revolucionário?

Tudo no país o deixava com o pé atrás: a miscigenação racial, a desorganização, a rejeição ao autoritarismo e, principalmente, a força da Igreja progressista rompendo tradições.

Aos poucos a Opus Dei foi encontrando seus aliados na direita universitária e entre os garotos que acreditavam nos fins exclusivamente espirituais e na “neutralidade política” da Obra. Entre os primeiros estavam dois jovens promissores: Ives Gandra Martins e Carlos Alberto Di Franco, o primeiro simpático ao monarquismo e candidato derrotado a deputado pelo Partido Libertador; o segundo, um secundarista do Colégio Rio Branco, dos rotarianos do Brasil. Ives começou a freqüentar as reuniões da Opus Dei em 1963; Di Franco “apitou” (pediu para entrar) em 1965. Três anos depois foi a vez de Jean Lauand, então com 16 anos.

Hoje a organização diz ter no país pouco mais de 3.000 membros e cerca de 40 centros, onde moram aproximadamente 600 numerários, metade deles em São Paulo. Carlos Alberto Di Franco formou-se em Direito, mas se dedicou ao “jornalismo opinativo”, além de dar aulas de Ética, primeiro na Cásper Líbero e depois no Masters em Jornalismo, curso de extensão com franquia da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra (fundada por Escrivá em 1952), da qual é representante no Brasil. Também tem uma consultoria para gestão de órgãos de imprensa. Ives Gandra Martins é supernumerário, jurista com livros publicados e muitos convites para dar entrevistas, palestras, e escrever para os jornais. Ambos são os “embaixadores” da Opus Dei no Brasil. Gentis e bem apessoados, amigos dos donos de jornais – especialmente da família Mesquita, de O Estado de S. Paulo –, de políticos, sacerdotes e empresários.

Foram essas vozes que se ouviram em defesa da Opus Dei quando O Código da Vinci foi lançado por aqui, pela Editora Sextante, em 2004. Da página de Opinião do Estadão, da qual é colaborador, Di Franco lançou o primeiro petardo sob o título “Código da Vinci – muito dinheiro e pouca ética”, em que reproduz críticas desairosas ao livro, selecionadas na imprensa internacional, sem tocar no nome da instituição à qual pertence. O jurista Ives Gandra Martins preferiu o título “Código da Vinci, a farsa consagrada” e foi mais direto: “Qualquer estudante de Direito Canônico sabe que o Opus Dei é uma prelazia pessoal, que objetiva dignificar a condição humana e que não tem monges, por não ser uma instituição religiosa, mas secular”. Munição inadequada para abater uma obra tão popular, mas suficiente para alertar a elite que lê artigos de jornal.

O DISSIDENTE

É quando entra em cena Jean Lauand, professor titular da Faculdade de Filosofia da Educação da USP, professor da Pós-Graduação do Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras também da USP e o maior especialista brasileiro em São Tomás de Aquino. Lauand não apenas deixara a Obra como estava decidido a falar. Junto com outros dois ex-numerários, o cardiologista Dario Fortes Ferreira e o juiz fazendário Márcio Fernandes da Silva, escreveu o livro Opus Dei, Os Bastidores, lançado em dezembro do ano passado, com a intenção de provar que os intestinos da Opus Dei são muito diferentes da fachada abençoada pelo Papa. Diz ele na introdução do livro: “O Opus Dei é, de longe, a instituição da Igreja sobre a qual recaem mais críticas e suspeitas. Resumidamente, essas críticas incidem em alguns pontos: a de que seus métodos seriam inescrupulosos e poucos transparentes; seu proselitismo, agressivo; e sua visão de mundo, fanática. Em uma palavra: uma seita”.
Lauand conhece o peso da acusação. Numerário da Opus Dei durante 35 anos, professor de Filosofia de seus pares e também dos alunos de Di Franco no Masters em Jornalismo, participou das rodas mais íntimas da instituição e conhece os seus segredos e ardis. Para ele, a “enorme distância entre a proposta fachada da Obra e a realidade” iludiria as pessoas que sinceramente acreditam que estão ali por “vocação divina”, obrigando-as, ao descobrir a realidade, a “um enorme contorcionismo intelectual e espiritual” para continuar acreditando na instituição a que entregaram suas vidas. “O controle mental exercido pela Obra é tão forte que, em geral, mesmo aqueles que a deixam saem não só desamparados material e emocionalmente, mas também, do ponto de vista religioso, sentem-se angustiados e cheios de culpa”, denuncia.

As conseqüências da publicação do livro de Lauand vieram a galope. Primeiro na forma de centenas de denúncias à Opus Dei na Internet (estima-se que de cada cinco numerários, quatro deixam a Obra). Depois em mais dois livros sobre o assunto: “Memórias Sexuais no Opus Dei” – um relato do professor de Matemática Antonio Carlos Brolezzi sobre sua apavorante experiência como numerário da Obra; e “A Falsa Obra de Deus”, em que a escritora Elisabeth Silberstein conta como o filho adolescente foi “sequestrado pelo Opus Dei”.

CADÊ A PLACA?

Entre os jornalistas, Di Franco é tido como porta-voz informal da Opus Dei, e por isso foi quem procurei em busca de autorização para percorrer os centros e entrevistar livremente seus membros – as notícias na imprensa internacional me levavam a crer que a Obra havia aberto suas portas para os jornalistas a fim de afastar a mítica fama de secreta. Depois de três dias de insistentes telefonemas para marcar uma entrevista com ele, sua secretária Nelly abriu o jogo: “Ele não vai falar sobre esse assunto (Opus Dei), está havendo muita exploração”. Di Franco estava irritado com a publicação de uma matéria na revista Época mostrando as relações da Opus Dei com o então governador Geraldo Alckmin. Na mesma reportagem foi obrigado a responder perguntas constrangedoras da repórter Eliane Brum que o obrigaram a “revelações íntimas” como sustentar ser um sexagenário virgem e se autoflagelar como todos os numerários.

Liguei então para Ives Gandra Martins, que me recebeu gentilmente e defendeu com convicção a instituição a que pertence na categoria de supernumerário. Casado há 48 anos com a advogada Ruth Vidal Martins, também supernumerária, Ives faz um balanço muito positivo de seus 35 anos de Opus Dei. O cristianismo “vivido na radicalidade” sempre o cumulou de alegrias, contribuindo para a harmonia de seu casamento e da família.

Contou-me que quatro de seus seis filhos são numerários da Opus Dei, que respeita muito a opção deles de seguir a “vocação de entrega total a Deus”. Um outro filho é supernumerário como ele e um não pertence à Obra, e seus quatro netos “todos no Colégio Catamarã”.

Eu já ouvira falar do Colégio Catamarã que me disseram ser um colégio de ensino fundamental da Opus Dei. Perguntei-lhe se isso era verdade. “Não, não é do Opus Dei, é um colégio laico que tem alguns membros da Obra em seu corpo docente”, respondeu. Como eu havia visto no site do colégio na Internet que o prédio dos meninos ficava no Itaim e o das meninas no Ibirapuera – perguntei o motivo da anacrônica separação dos alunos por sexo. Para minha surpresa, ele respondeu que eu estava enganada quanto ao “anacrônica” pois “a moderna pedagogia européia” havia concluído que “nessa fase,“as moças” (de 11 a 14 anos) amadurecem “mais rápido do que os rapazes” e que essa diferença de ritmo precisa ser respeitada. Passei para o assunto das denúncias feitas por ex-numerários de coação e lavagem cerebral. Não fica preocupado com seus filhos? Ele respondeu que as denúncias “não tinham nenhum fundamento”, que a propalada autoflagelação era uma “pequena mortificação corporal” que tinha de ser entendida no contexto de “uma vida oferecida a Deus” e que “como dizia São Josemaría (Escrivá), para entrar na Obra era preciso empurrar as portas, mas para sair elas estavam abertas”. Perguntei então a que atribuía as denúncias, e ouvi pela primeira vez uma resposta que se repetiria ao longo de minhas entrevistas com membros da Obra: “E Judas não traiu Cristo?”

Ives também insistiu em dizer que a Obra é uma pequena organização com fins espirituais e que está longe de ter a força a ela atribuída dentro ou fora da Igreja. “Quiséramos nós…”, brincou. E me aconselhou a conhecer a escola técnica da Pedreira, que só atende meninos, essa sim uma obra corporativa da Opus Dei. Quanto à idéia de circular pelos “centros culturais” da Obra, teria de ser discutida com o escritório de imprensa, chefiado pelo numerário João Gustavo Racca.

Fui então pesquisar na Internet a respeito da descoberta pedagógica européia que defenderia a segregação de sexos. As referências que encontrei apontam para um pedagogo espanhol, Victor García Hoz, que desenvolveu o método adotado em diversas escolas que “recebem orientação espiritual da prelazia do Opus Dei” ao redor do mundo e também pelo Catamarã e a Pedreira. Além de separar meninos e meninas, a pedagogia de Hoz é fundada em “preceptorias”, um sistema de professores-confidentes que visam atender o aluno em sua formação global que me pareceu uma versão de confissão muito apreciada na Opus Dei chamada de “conversa fraterna” em que os numerários têm de “se abrir” com os diretores leigos (e também numerários). Além disso, como destaca Lauand, as escolas da Opus Dei – que proíbe a leitura das obras do educador Paulo Freire mesmo àqueles que são professores — são as únicas a prestigiar Hoz, um pedagogo mediano que ficou tristemente famoso por presidir a banca da Universidade de Madri que, a mando do general Franco, reprovou a tese de doutoramento de Julian Marias, um dos maiores nomes da filosofia no país. Ex-numerários me disseram que são pressionados a fazer “campanha” para que seus familiares e amigos, supernumerários e cooperadores, matriculem seus filhos no colégio Catamarã que teria o objetivo de preparar os garotos para futuras “vocações”. A escola é administrada por pessoas ligadas à Obra, que também está representada por alguns professores do colégio, como os supernumerários Anselmo Lázaro Brandão e Evandro Faustino, formados originalmente pela TFP.

No Brasil, há ainda três escolas técnicas apresentadas como as “obras sociais da organização”: a Casa do Moinho, em Cotia (SP), e o Centro de Capacitação Profissional dos Pinhais, em São José dos Pinhais (PR) que oferecem às moças o Curso Técnico de Hotelaria; e o Centro Educacional e Assistencial de Pedreira, para meninos de 10 a 18 anos, na zona Sul de São Paulo que é a principal vitrine da Obra para arrecadar doações em nome da OSUC — Obras Sociais, Universitárias e Culturais, uma das entidades jurídicas a encobrir o nome da Opus Dei no Brasil. A OSUC se apresenta como uma ONG do terceiro setor e é responsável pelo administração das finanças e do patrimônio da seção masculina da Obra em São Paulo.

A BARREIRA INVISÍVEL

É difícil relaxar quando se está em território Opus Dei apesar da gentileza sorridente dos anfitriões. Começa por nunca saber direito onde estamos: muitos prédios não têm indicação nenhuma e os que trazem inscrições como Centro Sumaré – Obras Sociais, Universitárias e Culturais, parecem sempre vazios e sem qualquer programação cultural além de um ou outro curso de “técnica de estudos”. Você marca um encontro no escritório de imprensa e descobre estar em um centro de formação de vinte numerários um misto de escola de cadetes e seminário que é o coração da Obra, vai entrevistar o vigário e não há nenhuma placa que indique estar na sede da prelazia Opus Dei, entra em um prédio modernoso no qual funciona o curso de Jornalismo dirigido por Di Franco e descobre que ele mora nos andares superiores em um centro de numerários. O único lugar que visitei claramente sinalizado foi a escola técnica de Pedreira, conhecida por SENAI entre os moradores do bairro, o único local de arquitetura condizente com o objetivo enunciado.

Em geral as construções são estranhas, aparentando muitas reformas feitas nas casas originais, quase sempre antigas, para abrigar moradores, capelas, refeitórios e isolar numerários e numerárias-auxiliares (com entradas e saídas diferentes) que têm de morar também nos centros masculinos para fazer os serviços domésticos. Longos corredores com muitas portas fechadas e escadas que levam a pavimentos subterrâneos despertam a curiosidade, mas não se pode zanzar livremente. Assim que o visitante chega, a pessoa que abre a porta o conduz a uma de suas muitas salas – sempre com portas – dando a incômoda impressão de o recinto ter sido previamente escolhido para confiná-lo. Em seguida o anfitrião se retira a pretexto de buscar água e café e só volta com a bandeja quando aparece a pessoa com quem o compromisso foi marcado. Usei várias vezes o expediente de chegar antes da hora para ver se testemunhava algo mais espontâneo, mas não deu certo. Se ousa sair da sala, aquele que sumiu assim que você tentou puxar papo, reaparece milagrosamente com o prometido café, e lá vai você de volta para o sofá.

Não há jornais nem revistas, apenas antigas edições da publicação oficial “Painel de Notícias”, quase sempre o número que traz a festa da canonização de Escrivá. Tudo é impecavelmente limpo e arrumado e não se ouvem conversas, música ou televisão.

A coisa pode se complicar se você é mulher e está em um centro masculino, reforçando a mensagem não-verbal de que não deve sair abrindo portas aqui e acolá. Na minha primeira conversa com o “assessor de imprensa” escalado para me atender, na verdade um jovem supernumerário repórter da católica Rede Vida que também não sabia direito onde estava, ele ficou terrivelmente constrangido quando pedi para ir ao banheiro. Não fui.

O APOSTOLADO DA AMIZADE E CONFIDÊNCIA

Os motivos para a evidente falta de espontaneidade das pessoas começam a se revelar quando se conhece o método de evangelização da Opus Dei, o “apostolado da amizade e confidência”, o início do “plano inclinado” de Escrivá, “um processo de manipulação em que progressivamente uma pessoa vai sendo encaminhada a descobrir sua suposta vocação”, define Lauand. O livro do professor Antonio Carlos Brolezzi narra com sinceridade impressionante como funcionam na prática as técnicas de “evangelização” criada por Escrivá, considerado por seus seguidores “um educador nato”.

O vigário da Opus Dei, Vicente Ancona Lopes, um numerário que deixou o terceiro ano da Faculdade de Engenharia da Poli ao ser chamado a se ordenar, formou-se em Pedagogia em uma universidade da Obra em Roma enquanto completava os estudos para o sacerdócio. Sua descrição sobre a forma de evangelização criada por Escrivá: “Os primeiros cristãos se converteram pela pregação de Nosso Senhor. Naquela época eles não tinham igrejas, nem livros era uma conversão verbal de um a um que depois ia chegando à família. É nesse apostolado capilar de amizade e confidência que o Opus Dei aposta para cumprir sua parte no esforço de evangelização. A gente anima as pessoas a ter muitos amigos, a se abrir com eles e manifestar a alegria por ter reencontrado a religião e convidá-los a participar de atividades no centro, às vezes um curso de matemática ou liderança, mas dizendo que ali é um centro católico, um centro da Opus Dei.”. A maioria dos numerários tem seu primeiro contato com a Obra nesses “cursos” citados pelo vigário mas os que saem contam que só foram ouvir falar de religião, catolicismo e Opus Dei depois de semanas ou meses.

O ex-numerário Antonio Carlos Brolezzi, levado aos 18 anos pelo irmão mais velho para “fazer um curso de astronomia” em um centro da Opus Dei, conta em seu Memórias Sexuais no Opus Dei como funciona a técnica de evangelização para “fabricar uma vocação” – expressão cunhada por Jean Lauand depois de ouvir dezenas de relatos semelhantes — que o levou a permanecer 9 anos morando em um centro da Obra embora tenha feito a primeira tentativa de sair seis meses depois de descobrirem sua “vocação” para seguir o “caminho espiritual” de Escrivá. O livro foi escrito dez anos depois dele sair da instituição quando sua mulher, Viviane, mestranda na Faculdade de Educação, fez com que ele contasse o que viveu dentro da Opus Dei enquanto ela digitava o relato no computador. Só assim ele venceu o bloqueio de falar sobre os anos tenebrosos que passou sob o domínio do Padre Vicente, o atual vigário, que o diagnosticou portador de “erotismo mental” e para “curá-lo do desvio” o submeteu a um severo regime de confissões e penitências que atingiu o ápice de humilhação ao ser obrigado a usar um traje noturno que o impedia de tocar o próprio corpo.

Brolezzi conta que entrou na Opus Dei sem ter a menor idéia de onde estava se metendo e só ouviu falar em religião depois de envolvido em uma falsa atmosfera de carinho e atenção quando se sentiu forçado a aceitar aulas individuais de formação cristã. A “experiência definitiva” veio na forma de um convite para um retiro em “uma chácara bem legal para onde as pessoas do centro iriam para descansar, refletir e aprender um monte de coisas interessantes”. Deprimido com as palestras sobre “céu, inferno e purgatório” que se sucediam, gostou quando o padre o chamou para conversar e se mostrou interessado em sua vida. Aos 19 anos, nunca tinha falado tão abertamente a alguém sobre seus problemas mais íntimos. Seguiu-se a planejada catarse: “Rompi em lágrimas e fiz a minha primeira confissão de joelhos diante daquele padre sentado, cuja batina tocava no chão e fazia dele uma espécie de estátua assombrosa. O que importava é que minha alma estava lavada e assim fui capturado (…). De volta à vida normal, após o retiro, acabei por me sentir como argila mole que podia ser moldada. E como me moldaram!”, diz ele que “apitou” como numerário um ano após, depois de convencido de sua “vocação” por um “amigo” — o numerário encarregado de “tratá-lo” pela cartilha do “apostolado e confidência” criada por Escrivá — confirmada como “chamado de Deus” pelo padre. Todos deixaram claro que não assumi-la seria “falta de generosidade” com Deus e os “amigos” da Opus Dei que o acolheram com tanto amor.
“O Opus Dei não espera que você seja convencido intelectualmente da veracidade da doutrina católica. Seu objetivo é a conquista do seu coração”, diz Brolezzi.

A partir daí, além de deixar a família “de sangue” – como ensinam na Obra – e adotar o que hoje considera uma rotina maluca – acordar às 6 da manhã, beijar o chão dizendo Serviam (palavra latina que significa “servirei”), tomar um banho gelado para afastar as tentações da carne, assistir à missa, ir para o trabalho, orar meia hora de manhã e de tarde, rezar o terço, participar da tertúlia (reunião com os membros da casa) e principalmente confessar e se penitenciar, a essência do plano de vida rumo à “santificação” prescrito por Escrivá.
Vale a pena relatar como funciona a confissão e expiação dos pecados, o “coração” do projeto de domínio e controle exercido pelos dirigentes da Opus Dei sobre seus membros. Mais importante do que as confissões com o padre — quase diárias já que o numerário tem de comungar todos os dias e só pode fazê-lo se antes confessar — é a “conversa fraterna” semanal quando tem de contar tudo que fez, pensou e imaginou ao diretor leigo do centro, a autoridade máxima da vida cotidiana do numerário, sempre começando pelos pecados contra “a pureza”, o “sapo gordo” como dizia Escrivá. Depois o diretor cobra os resultados do “apostolado” realizado pelo numerário naquela semana — a venda de produtos da casa editorial da Opus Dei no Brasil, a editora Quadrante, a arrecadação de fundos para as campanhas da Obra (chamada de apostolado da boa doutrina) e a captação de novas “vocações” (apostolado da amizade e confidência). A avaliação que o diretor faz do “sucesso” do numerário em seu “caminho espiritual”, tem grande efeito prático já que é ele que concede as autorizações necessárias para absolutamente tudo que o numerário quiser fazer — de telefonar à família “de sangue” a dispor de alguma quantia de seu próprio salário (integralmente depositado no caixa do centro). Também traça o destino do numerário: se ascenderá na hierarquia — rumo a cargos de direção ou ao sacerdócio — ou continuará fazendo parte da massa de numerários da “senzala”, como diz Lauand, “os paus para toda obra” que fazem a máquina Opus Dei funcionar.

A cada vez que o numerário confessa seus fracassos em santificar a vida, padre e diretor leigo se unem para “aconselhá-lo” que redobre o rigor na mortificação corporal — que vai de coisas singelas como deixar de comer o que gosta à autoflagelação cujos instrumentos lhe são dados depois que “apita”, até então ele nem suspeita que existam. Brolezzi descreve o que se sente durante “essa pequena mortificação corporal”, de acordo com a definição dos membros da Obra. “O cilício, aquele anel de metal rígido apertado em volta da coxa, furava a pele com suas dezenas de pontas agudas, coça, arde, e faz morrer de aflição” é usado duas horas por dia, menos nos domingos e dias santos. As disciplinas são três cordões grossos unidos em um cabo geralmente utilizadas no “dia de guarda”, um dia na semana em que se faz mais mortificações. Brolezzi conta a primeira vez que usou: “É muito difícil quando você é um jovem normal de 20 anos de idade, convencer-se de que deve entrar no banheiro, trancar a porta, abaixar as calças, curvar-se para frente e começar a chicotear as nádegas que queimam com as pancadas. A dor maior é na alma, no orgulho, no senso de humanidade que começa a se degradar nesse momento.”
Depois de completar a formação de numerário, o rapaz está apto para ser um apóstolo da amizade e confidência. Sai à rua com a missão de se misturar aos outros sem que ninguém perceba que está ali com a missão de “santificar” o mundo. O segredo imposto a si mesmo sobre a vida terrível que leva dentro dos centros da Opus Dei impede qualquer comunicação real com as pessoas de fora. O que interessa agora é captar mais gente para o exército purificador de Escrivá;

“Quando você entra na Opus Dei, o mundo muda. Os amigos se tornam objetos. Se uma pessoa serve para ser levada ao centro porque tem boa aparência e é estudiosa então você procura se aproximar e fazer amizade com ela. Pouco importa se você gosta dela ou não. Eu levava para o centro aqueles que ia conhecendo na USP, depois passaram a me dizer que fulano era um tipo esquisito, com jeito de homossexual, ou não se sentiria bem no ambiente do centro porque aparentava ser pobre ou era mal-educado. Fui aprimorando o critério de seleção, só me interessavam aqueles que poderiam agradar aos diretores. Essa atitude de agente secreto fez com que eu conseguisse poucas amizades verdadeiras durante o período em que fiquei na Obra”, conta Brolezzi.
A essa altura, já havia aprendido a mascarar seus sentimentos, arrancar os segredos alheios e a lutar para reprimir seus desejos – na base da culpa e expiação. Tinha ainda de manter sempre uma “boa cara”, por mais que sofresse. Como ele diz: “O santo fundador do Opus Dei decretou que a principal mortificação dos numerários era sorrir”.
Não é à toa que seus sorrisos parecem falsos.

CÚMPLICES DO DEMÔNIO

“Eis que de uma portinha escondida atrás de uma parede, começaram a sair umas mulheres vestidas de preto com uniformes de empregada doméstica de casa chique que eu só tinha visto em novela. Todas tinham expressão facial nula, pois não podiam olhar a gente nos olhos nem a gente podia olhar para elas”.

A cena descreve o primeiro contato que Brolezzi teve com as numerárias-auxiliares, as que ocupam a casta mais baixa nas categorias inventadas por Escrivá, a partir da divisão central: a de gênero. As mulheres devem ficar a “cinco mil quilômetros de distância” dos homens, repetia a seus discípulos. Elas não estavam previstas na “revelação divina” que o fez fundar a Obra, em 1928. Foram incluídas no esquema — na seção feminina, completamente separada da seção masculina — após nova “visão” inspirada por Deus em 1930.
Estamos na sala de estar de um centro de numerárias na Vila Mariana. Depois de muito insistir para conhecer um centro da seção feminina da Obra, fui encaminhada a uma numerária espanhola, Julia L. Sanchez, uma mulher corpulenta vestida com roupas evidentemente caras, que se apresenta como assessora de imprensa. “Não posso responder perguntas, são elas que vão dar a entrevista”, avisa, apontando para duas moças que aparentam ter passado um pouco dos 30 anos.

A primeira é Maria Nazaré Lins Barbosa, subdiretora de um centro feminino no Sumaré e está vestida de acordo com seu traje de trabalho – tailleur preto, meia fina, brincos e uma discreta maquiagem., advogada, ela é assessora jurídica da Câmara Municipal de São Paulo, professora na área de terceiro setor, cursando doutorado na Fundação Getúlio Vargas. Tem 40 anos, e vem de uma família carioca “muito católica” com 11 filhos. Conheceu a Opus Dei quando tinha 16 anos, através de uma colega de classe que a convidou para uma palestra em um centro, identificou-se com o “espírito da Obra de dedicação ao trabalho”, “apitou” como numerária e veio morar em um centro da Obra em São Paulo, onde se preparou para o vestibular e acabou ficando “porque fiz aqui minha vida profissional”.

A outra é mais informal, apresenta-se apenas como Cristina, diz ter 38 anos e que não teve a mesma sorte de Maria Nazaré, sua família é católica mas “não tão praticante”. Nasceu em Limeira, no interior de São Paulo, e cursava o colégio técnico de edificações da Unicamp, em Campinas, quando foi convidada por uma amiga a participar de uma campanha do agasalho, realizada por numerárias-auxiliares em um centro da Obra. A roupa que veste — calça, túnica, sapato baixo — não é o seu traje de trabalho e os cabelos lisos costumam ficar escondidos sob a touca. Normalmente ela usa um uniforme de empregada doméstica azul-claro abaixo dos joelhos como a moça que abriu a porta do centro para mim. Há 22 anos Cristina cozinha, lava, passa e faz a limpeza dos centros da Obra — masculinos e femininos, conforme a necessidade. Ela também é monitora, encarregada de treinar as moças que, como ela, “apitam” como numerárias-auxiliares, o que significa a descoberta da “vocação” para trilhar o caminho de santificação servindo de empregada aos que servem a Deus.

Ela não concorda com a definição: “A numerária-auxiliar não é uma empregada doméstica como dizem por aí, ela é a mãe da família sobrenatural do Opus Dei fazendo o mesmo que fazem as mães das famílias de sangue: cuidar do bem-estar de cada um dos filhos, saber se um está de dieta, se outro gosta do bife bem ou mal passado se a jaqueta do outro precisa ser lavada com produtos especiais, deixar a mesa bonita, a casa aconchegante.”
Pergunto como ela realiza esse “serviço personalizado” quando trabalha nos centros masculinos se não pode nem olhar no rosto dos que serve à mesa. Ela não se aperta: “Temos um ramal de telefone para combinar com o secretário do centro. Algumas vezes também recebo as informações por escrito. E quando eu sirvo à mesa dou uma olhada rápida para identificar os regimes, acabo sabendo quem eles são, só não fico me fixando.”
“Você chama as numerárias de senhora?”. Aponto para Nazaré: “Você chama a Nazaré de senhora?”
A “assessora de imprensa” Júlia se remexe na cadeira.

Cristina tenta emendar, sincera demais para mentir: “Eu chamo como chamo minha mãe é meu jeito. Quando eu estudava na Unicamp os professores não queriam que eu chamasse de senhor, mas eu chamava.”
“Mas e as outras numerárias-auxiliares, você chama de senhora: “As mais velhas eu chamo de dona, assim como a dona Hilda, a segunda numerária-auxiliar do Brasil, uma senhora de idade”.

Insisto no interrogatório apesar do constrangimento delas. Cristina não gosta de mentir, é evidente, por mais bem treinada que tenha sido. Acaba confirmando que as numerárias-auxiliares comem em um refeitório separado antes de servir as mesas “porque o Fundador da Obra queria que a gente comesse antes para não estar com fome na hora de servir, foi pensando no nosso bem estar que ele disse isso” e na maioria das casas a louça dos numerários é diferente da delas. Até nos domingos têm de servir almoço e jantar — “a gente dá uma adiantada no serviço e aí eu participo das atividades sociais como voluntária”.

Fica mais à vontade quando pergunto se recebe pelo trabalho que presta: “Ah sim, somos registradas em carteira como profissionais de hotelaria pela AFESU (a entidade jurídica da seção feminina da Opus Dei: Associação Feminina Social e Universitária) e ganhamos salários equivalentes aos pagos no setor de hotelaria. As numerárias e os numerários pagam a administração das casas que moram e eles nos pagam.”

Para suavizar o ambiente de, digamos, luta de classes, pergunto às duas como lidam com o assédio masculino. Nazaré diz evitar caronas e as situações que a deixem sozinha com os colegas homens, “mantenho a postura de uma pessoa que escolheu não se apaixonar”, também não usa decotes ou roupas que chamem a atenção porque é naturalmente “uma pessoa reservada”. Cristina, sempre trancada em casa, escapa mais fácil do assédio porque os únicos homens com quem convive nunca olharam para o seu rosto. Assume um ar maroto: “Teve um tempo que eu dei aula nos cursos técnicos de hotelaria da Obra (abertos para gente “de fora”, e onde se recrutam muitas numerárias-auxiliares). Algumas das minhas alunas foram fazer estágio nos hotéis e eu as acompanhei. Aí como não está escrito na minha testa que sou numerária-auxiliar… Quando isso acontece, deixo claro no primeiro convite: sou uma pessoa comprometida. Se você quiser, tenho umas alunas encantadoras, boas meninas…”

Por fim, pergunto a elas o que perderam e o que ganharam depois de entrar na Obra. Nazaré responde antes: “O que foi para mim uma entrega a Deus foi renunciar à maternidade, porque eu adoro criança. E também ao prazer sexual, sou celibatária, né? Mas acho que toda mulher madura tem que desenvolver qualidades maternais mesmo que não seja mãe. No dia a dia, no trabalho com as pessoas. O que eu ganhei é difícil dizer porque na verdade me identifico tanto com o espírito da Obra que não imagino minha vida de outro jeito.” É a vez de Cristina, ela dá risada antes de contar: “Minha mãe diz que na Obra eu aprendi pelo menos duas coisas: a comer de tudo e a fazer trabalhos domésticos que sempre detestei. Se arrumasse tempo talvez voltasse a estudar”.

“Ué, e como você disse que sua vocação não era de numerária e sim de numerária auxiliar? Você queria estudar e acabou fazendo logo o que detestava?”

Ela responde: “Foi por amor, eu amava aquelas pessoas que conheci no centro, não faria o que faço por dinheiro. Quando a gente ama aprende rápido. É como se eu tivesse casado e meu marido gostasse de lazanha. Com certeza eu aprenderia, sou tão feliz na cozinha!”.

A entrevista se encerra com uma volta na casa vazia que denúncia a farsa armada para a jornalista que queria ver como as numerárias e as numerárias-auxiliares vivem. Era evidente que Cristina, com sua origem de classe média e sua devoção sincera, havia sido selecionada por Júlia para me convencer que não há um fosso social entre as numerárias auxiliares e as numerárias e que ambas são mulheres “realizadas” que fizeram livremente suas escolhas. Na despedida, acendo um cigarro e pergunto casualmente para elas se é verdade que só os homens da Obra podem fumar (e como fumam). As três riem. Nazaré explica: “Na Obra, não somos proibidas de nada, eu fumava quando garota.” “E parou por que?” “As mulheres têm de agir como mães dando bom exemplo mesmo que celibatárias. Por isso voluntariamente oferecemos mais essa pequena mortificação a Deus”.
Júlia tem as suas razões. Seria desagradável ter de me levar a um centro feminino como o que Nazaré dirige, sentar nas camas sem colchão onde dormem e conversar abertamente sobre o cotidiano delas, uma vida ainda mais sacrificada que a dos numerários. Pior ainda seria confessar que as numerárias auxiliares não têm centros próprios porque vivem nos fundos das casas onde trabalham, separadas por duas portas trancadas a chave quando são empregadas dos homens. No dia anterior eu havia conversado por telefone com a ex-numerária Rosidalva Julião, descrita pelos amigos paulistas como uma negra bonita e alegre, que foi “pescada” em um ponto de ônibus assim que chegou da Bahia. A promessa de realizar “trabalhos administrativos” em um centro cultural virou trabalho gratuito em um apartamento-moradia de numerárias, recompensado com um treinamento “técnico” para realizar serviços domésticos e aulas de formação em doutrina cristã. Convertida (era evangélica) foi empurrada para “apitar” como numerária-auxiliar desta vez com a promessa de registro em carteira e remuneração de dois salários mínimos. Antes a levaram à ginecologista para checar se era realmente virgem. Resistiu o quanto pôde trabalhando de domingo a domingo, permanentemente vigiada para cumprir o rígido esquema de oração, penitência, mortificação corporal, etc. Hoje cria o filhinho de dois anos e leva uma vida dura em Salvador. Mas diz estar feliz por ter tido coragem de escapar: “Eu era ruim no apostolado, não tinha coragem de abordar as pessoas como me abordaram e levá-las para aquela vida horrível. Quando me pressionaram, saí com uma mão na frente outra atrás mas com a dignidade recuperada. Aqui cuido do meu filho, saio, uso roupa de gente normal. Ninguém mais vai me chamar de cúmplice do demônio porque minha canela está aparecendo…”

O REPRESENTANTE DO PRELADO

Quando John Allen estava acabando de escrever o livro encomendado pela editora de O Código da Vinci foi obrigado a enfrentar a rumorosa questão das denúncias de ex-membros que atingiu grandes proporções nos Estados Unidos e na Espanha. Javier Echevarría, o prelado da Opus Dei, decidiu aproveitar a ocasião para tentar uma reconciliação: “Digo com toda a sinceridade e do fundo do meu coração: se prejudicamos alguém, se falhamos com alguém, pedimos que nos perdoe”.

A transcrição da frase é interessante porque mostra o controle exercido por Roma sobre o representante brasileiro. Os que conhecem o padre Vicente Ancona Lopez e sua pedagogia tão bem exposta no livro de Brolezzi jamais esperariam ouvir o que ele disse para mim quando o inquiri sobre as denúncias dos ex-membros: “Se machucamos alguém, quero pedir desculpas de todo coração”, repetiu literalmente. “Eles mentem?”, pergunto: “Não, mentir eu não diria, eles vêem as coisas de outro ponto de vista, de um outro ângulo. É como uma esposa que se separa do marido. Ela mente? Não, está contando a história do ângulo dela”.

A comparação é sugestiva pelo fato de o vigário ter colocado os ex-membros no papel de “esposa” e a Opus Dei no papel de “marido”. Uma ex-funcionária de um numerário da Opus Dei, que pede para permanecer anônima por achar que não encontrará emprego se revelar o nome de seu chefe, foi demitida depois de o marido tê-la abandonado, embora ela nada tivesse a ver com a Obra. “Meu chefe disse que não estava suportando a pressão de seus superiores, os dirigentes da Opus Dei. Ele até poderia me manter no cargo, desde que eu desistisse de reconstruir minha vida. Mas quando souberam que eu pretendia me divorciar e arrumar um namorado, ele me jogou na rua depois de anos de trabalho sabendo que eu dependia do emprego para trabalhar. Onde está o espírito cristão dessa gente?”, pergunta indignada.

Padre Vicente afirma que a Opus Dei sempre seguiu estritamente os ensinamentos da Igreja Católica Apostólica Romana. “Quando o Fundador recebeu de Deus a mensagem, já viu o Opus Dei como um grande instrumento de serviço ao Papa e à Igreja. Inclusive várias vezes quando o Opus Dei foi acusado de ser um grupo separado dentro da Igreja, ele fazia as orações pedindo a Deus: ‘Se o Opus Dei não for para servir a Igreja, destrua-o agora mesmo’. Nós, no Opus Dei não nos metemos em política, queremos que cada um vote com consciência, mas em matéria de religião, por carisma até, somos muito sintonizados com o Papa. Por isso você não vai encontrar ninguém no Opus Dei que defenda a ordenação das mulheres, o divórcio, o sexo fora do casamento, a pílula anticoncepcional, o movimento pelo aborto, o movimento dos homossexuais…”

“Mas não há nada nos Evangelhos que condene os homossexuais”, observo. “A relação homossexual é probida por ser contra a natureza. Está na Bíblia, Sodoma e Gamorra. E a Igreja não bane o homossexual. É uma anormalidade. A gente compreende que é muito difícil para uma pessoa nessa situação vencer a tentação, às vezes escorrega. E se ela confessa recebe a eucaristia. Encorajamos a pessoa, ‘vá a uma psicóloga para que ela te ajude a resolver essa charada’”.

“E se vier um Papa totalmente moderno nesses assuntos?”

“A gente fecharia com ele sem dúvida. A gente acredita que o Papa tem um carisma, vamos fechar com quem for. Se for africano com um brinco em cada orelha a gente vai dar um beijo nele. Se o Papa disser: o padre não deve usar mais clergyman preto, a gente no dia seguinte eu tiro o clergyman e boto uma blusinha. Se disser que cilício e disciplina é anacrônico, a gente pára de usar no dia seguinte. Mas não é assim.”

“Mas e a separação de homens e mulheres, o Papa nunca recomendou isso.”

“A separação entre os sexos faz parte da revelação de Deus a São Josemaría, não dá para explicar o porquê. E está nos regulamentos da Prelazia do Opus Dei e o papa aprovou. É uma característica nossa, se mudar deixa de ser Opus Dei. E nós não pregamos que ninguém na Igreja faça como nós, ao contrário. Nosso interesse é trabalhar junto com as dioceses, muito próximo dos bispos. Estamos perdendo muita gente para as seitas (sic) evangélicas, e dom Cláudio Hummes pede que a gente faça como os evangélicos, bata na porta das pessoas na periferia. Então temos essa escola técnica na Pedreira, o rapaz se inscreve e é muito freqüente que, atraído pelo ambiente da escola, pela simpatia do professor ou do padre Décio, em algum momento ele mostre interesse em conhecer o Evangelho. Então tem muita gente que se converte dentro do Opus Dei”.

OS COOPERADORES

Ao revelar os reais objetivos da obra corporativa da Opus Dei e chamar as igrejas evangélicas de “seitas”, o estouvado padre Vicente acertou duas canelas importantes: a do representante da OSUC, Lizandro Carmona de Souza, e a do numerário Carlos Alberto Di Franco.

Comecemos pelo dr. Lizandro que se esfalfou uma boa meia hora no telefone, tentando demonstrar que a OSUC é uma ONG do terceiro setor e nada tem a ver com a Opus Dei apesar de administrar as finanças e o patrimônio de toda a sua seção masculina e seus cinco diretores serem da Obra. Primeiro tentou sustentar a farsa já completamente desmontada de que os centros da Opus Dei são centros culturais e por isso administrados pela “ONG”, sua mantenedora. Vendo que isso seria impossível depois de tudo que eu já havia levantado sobre o assunto, passou para a escola técnica da Pedreira que recebe doações de empresas como Banco Itaú, Bradesco, GM e Citigroup. “É uma iniciativa do terceiro setor que já recebeu duas vezes o prêmio Bem Eficiente. Pelo amor de Deus não vá escrever que empresas como Itaú doam dinheiro para o Opus Dei”.

E aí passamos à canela de Di Franco, numerário de grande prestígio na Opus Dei por suas relações com a mídia. Responsável pelo “apostolado da opinião pública da Opus Dei, leia-se manter a imprensa quieta sem motivos para criticar a Obra”, como diz Lauand, Di Franco é um dos únicos numerários a desfrutar de algum conforto e liberdade já que precisa circular pela elite política, econômica e financeira do país para “santificar” o seu trabalho. Até a crise detonada pelo Código da Vinci tinha uma vida sossegada. Os donos dos jornais o apreciavam e ainda mandavam — e continuam mandando — seus editores para fazer o Masters em Jornalismo, um curso de especialização franqueado pela Universidade de Navarra e por ele dirigido. Assim ele tinha várias testemunhas de peso de que a Opus Dei não forçava ninguém a se converter — evidentemente os jornalistas não se submetiam à evangelização de Escrivá –, e passava uma imagem de “transparência”, por não esconder a ligação de Navarra e de seu curso com a Obra, e de quebra embolsava 18 mil reais por cabeça por cinco semanas de curso. Também fazia questão de alardear, como todos os “chefões” da Opus Dei, que a instituição era totalmente apolítica dedicada exclusivamente a fins espirituais.

Mas O Código da Vinci despertou a curiosidade popular e a revista Época resolveu fazer uma matéria sobre a Opus Dei. Fez grande sucesso, e A repórter Eliane Brum voltou ao assunto, então uma suíte, dessa vez trazendo um “furo” respeitável: o então governador Geraldo Alckmin vinha recebendo “formação cristã no Palácio dos Bandeirantes de um influente numerário, o jornalista Carlos Alberto Di Franco”, em reuniões mensais conhecidas como “Palestra do Morumbi”, da qual também participavam o vice-presidente da Fiesp e maior usineiro do Brasil, João Guilherme Ometto, o empresário e ex-presidente da Associação Benjamin Funari Neto, Márcio Ribeiro, ligado à indústria têxtil, José Conduta, dono da corretora Harmonia e o desembargador aposentado Paulo Fernando Toledo.

A reportagem também expunha as antigas ligações da família Alckmin com a Opus Dei. O tio de Alckmin, já falecido, foi o primeiro supernumerário do Brasil – José Geraldo Rodrigues de Alckmin, ministro do Supremo Tribunal Federal indicado pelo general Emilio Garrastazu Médici e sua prima Maria Lúcia Alckmin é numerária bastante conhecida nos círculos da Obra. O próprio Geraldo Alckmin, quando prefeito de Pindamonhangaba, batizou uma rua da cidade com o nome de Escrivá no cinqüentenário da Opus Dei e conserva na carteira um bilhete com um dos pontos de Caminho escrito por seu pai. Entrevistado por Época o primo, José Geraldo Alckmin, ex-numerário da Opus Dei, não apenas confirmou a ligação do ex-governador com a instituição a que pertencia como disse que ela surgiu da necessidade de anular o primeiro casamento de Lu Alckmin, mulher de Geraldo Alckmin há 26 anos.

Para mim, Di Franco confirmou apenas o nome de um dos participantes das Palestras do Morumbo, João Guilherme Ometto, como cooperador da Obra. Mas admitiu que estava no Palácio dos Bandeirantes como pregador, ou como ele prefere “soltando o speech” na reunião com “fins exclusivamente espirituais”, claro. Nega que o candidato à presidência tenha se afastado da Obra por medo de perder votos. Mas quando perguntei ao vigário: o Alckmin estava recebendo orientação espiritual para entrar na Opus Dei e desistiu por causa da repercussão, a resposta foi curta e grossa: “Exato”.

TEOLOGIA DO SUCESSO

Na salinha onde conversamos, na USP, Jean Lauand parece mais um monge erudito do que um ex-numerário submetido ao índex bibliográfico do Opus Dei. Pela descrição de Brolezzi em seu Memórias, não é muito diferente da cela que ocupava em um dos centros da Obra onde passou 35 anos de vida. Apesar das restrições de leitura dos seguidores da pedagogia de Escrivá — que proíbe, por exemplo, todas as obras filosóficas a partir de Descartes e todas aquelas escritas por pensadores católicos que não fazem parte do mundo da Opus Dei –, Lauand tinha autorização especial para ler o que precisava para defender suas teses acadêmicas e emprestar seu brilho em palestras em universidades católicas e seminários de ordens religiosas, suavizando a imagem obscurantista da Obra.

O seu catolicismo o levou aos 16 anos á Opus Dei, seguindo irmão que depois se tornaria padre da Obra. O mesmo catolicismo fez com que a abandonasse, e escrevesse um livro para revelar a verdade sobre “a seita”, como ele diz.

Lauand afirma que a Opus Dei esconde da Igreja Católica sua verdadeira natureza, utilizando-se dela em benefício da própria expansão e poder, assim como pode tudo retirar dos numerários que nela acreditam: bens, salários, amigos, família. Desnuda a Opus Dei para revelar sua natureza elitista, arrogante, sedenta de poder. E mira diretamente a pregação de Escrivá sobre a superioridade cristã dos que lutam pela “santificação do mundo secular”. Em suas palavras: “No momento em que uma instituição concentra seus objetivos em colocar Cristo (leia-se “um cristão formado pelo Opus Dei”) em postos de poder dentro da sociedade, roçamos, ainda que levemente, a mentalidade teocrática segundo a qual o poder civil exercido por pessoas inspiradas por Deus, será mais bem exercido. Passa a ser decisivo para o Opus Dei que seus membros ou colaboradores exerçam o poder”.
A opinião de Lauand, que nem de longe pode ser considerado alguém identificado com a Teologia da Libertação, é compartilhada plenamente por um dos fundadores dessa teologia, o belga José Comblin, hoje com 82 anos vivendo na Paraíba. “O Opus Dei é um movimento reacionário desde a origem na Espanha de Franco. No Peru eles se comprometeram com Fujimori o que depois acabou desmoralizando o arcebispo de Lima, o cardeal Cipriani, do Opus Dei. No Chile, Ricardo Lagos quase perdeu a eleição para o candidato dele. A questão é de doutrina, o reino dos Céus passa pelo reino deles, a instituição é voltada para a busca de poder que eles identificam com o poder.A insistência do fundador do Opus Dei em pregar que a perfeição cristã está dentro do trabalho profissional não é cristã. O valor supremo do cristianismo é servir ao próximo, servir aos outros, não a dedicação à vida profissional. Os que colocam a dedicação profissional acima de tudo vão enriquecer, buscar posições mais elevadas na sociedade, o que resulta em uma busca de poder por parte da instituição. Isso não é cristianismo”.

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~ por Naíme Silva em 27 abril, 2007.

Uma resposta to “Os Códigos da Opus Dei”

  1. Vejam também a entrevista com Antonio Carlos Brolezzi, ex numerario da Opus Dei na Rádio Eldorado a sua direita do blog Educação Libertária em Noss@s camaradas…outras paradas!

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